A crise atual no setor agrícola do sul do Brasil, que atinge fortemente o Vale do Taquari, deixou de ser uma crise puramente climática para se transformar em uma crise econômico-financeira. O agronegócio gaúcho vive um momento financeiro extremamente difícil, estrangulado por vários fatores. A região sofreu eventos climáticos extremos nos últimos anos, amargando uma sequência severa de estiagens intermitentes nos verões, agravada pelo impacto catastrófico das enchentes históricas que castigaram o Vale. O resultado foi a quebra sucessiva de safras, o comprometimento do manejo essencial do solo e campos agrícolas soterrados por lama e areia. A estimativa é de que o Rio Grande do Sul tenha deixado de produzir mais de 48 milhões de toneladas de grãos no acumulado recente.
Os impactos refletiram diretamente no bolso do produtor e impediram o pagamento dos financiamentos de custeio anteriores. O endividamento rural no estado já ultrapassa os R$ 60 bilhões, levando a taxa de inadimplência no crédito rural para a faixa histórica de 7,3% a 8,3%.
Com tantos produtores negativados, considerando cerca de 15% em todo o estado, o acesso a novos financiamentos reduziu. A maioria das instituições financeiras restringiram o crédito e a taxa de juros reais cobrada no campo atingiu o maior patamar desde 2011.
No Vale do Taquari, os preços pagos ao produtor pela saca de soja e milho estão incompatíveis com o alto valor investido em fertilizantes e diesel. A crise do milho e da soja atinge o coração da economia local. Como as pequenas propriedades utilizam os grãos para produzir ração e silagem, a falta de grãos baratos encarece o custo de criação de aves e suínos, além do gado leiteiro, ameaçando o sistema de integração com cooperativas e empresas da região.
Diante da ineficiência das medidas políticas padrão, lideranças rurais do Sul afirmam que o setor precisa de um pacote de socorro estruturado de longo prazo para recuperar a infraestrutura logística, prorrogar as dívidas sem juros abusivos, salvando a agricultura familiar.

A defasagem nos produtos agrícolas
A defasagem do que é produzido afeta o produtor de duas formas principais: na comercialização, onde o preço recebido cai devido à falta de infraestrutura, e nos custos operacionais: insumos elevados em relação ao valor dos produtos. O Brasil possui capacidade para estocar apenas 61,7% de sua safra, o que provoca deságio significativo por saca no pico da colheita. Sem lugar para guardar a produção, o produtor é forçado a vender, quando a oferta é máxima. Isso gera uma deterioração na base de preços.
Além disso, o aumento nos custos de produção, como fertilizantes dependentes do mercado global e combustíveis, somado à volatilidade cambial e ao crédito seletivo, comprime drasticamente as margens de lucro. Muitas vezes, a receita gerada pela venda da safra não cobre a inflação dos insumos aplicados no plantio da safra anterior, resultando em endividamento.

Transição dramática
O agronegócio na região sul vive uma transição dramática de recuperação produtiva sob forte asfixia financeira. Embora as colheitas estejam mostrando reação em volume, as margens de lucro sumiram devido ao alto custo do dinheiro e ao endividamento acumulado.

RÁPIDAS
O que o produtor pode fazer para mitigar o momento da dificuldade?
• Se a parcela vencer e a quebra de safra impeça o pagamento, sem demora, procurar a instituição financeira buscando prorrogação e/ou renegociação.
• Tentar trocar parte da produção futura de soja diretamente por insumos, reduzindo a necessidade de tirar dinheiro do caixa ou de pegar empréstimos bancários com juros altos.
• Reduzir custos na atividade leiteira através de produção própria de silagem.
• Utilizar a força associativa para compras coletivas de insumos e negociar melhores margens na venda do milho ou da soja.
• Em anos de El Niño ou La Niña severos, nenhuma lavoura de milho ou soja deve ser plantada sem a cobertura de seguros de faturamento ou de produtividade bem estruturados.
• Recuperação biológica do solo, pela sucessão de secas seguidas por excesso de chuva, que desestruturou a microbiota da terra. O uso de biológicos, rotação de culturas e plantio direto contínuo aumentam a retenção de água e nutrientes na raiz do milho e da soja.
• Sendo economicamente viável, investir em sistemas de irrigação que blindam o milho contra o estresse térmico no verão. Adicionalmente, investir em pequenas estruturas de armazenagem na propriedade, que evitam a venda forçada com deságio na colheita.
