Antes de a Chama Crioula ser acesa, a tradição já mobiliza os arredores do Pavilhão Multiuso. Integrantes acertam os últimos detalhes para que tudo esteja pronto até a tarde deste sábado, 12, quando o Acampamento Farroupilha será aberto. O evento chega aos 10 anos com 35 piquetes, o maior número da história, e se consolida como um dos principais do Vale do Taquari.
Por trás de cada estrutura erguida há histórias de envolvimento, convivência e preservação dos costumes. Representa um período de reencontros, divisão de tarefas e dedicação coletiva. É o caso de Aílton Lemos, 62, uma das principais lideranças do Piquete Popular, da vila homônima. Segundo ele, o planejamento começa meses antes e, já no dia 24 de agosto, quando o espaço foi liberado, os movimentos iniciaram. A madeira costaneira utilizada na estrutura é a mesma desde o princípio.
O grupo participa desde a primeira edição e conta com 26 membros. No piquete, geladeira, fogão a lenha campeiro e a decoração composta por utensílios antigos como lampião e serrote reforçam a sensação de ambiente familiar, acompanhados do chimarrão e da gastronomia típica. Aílton destaca que um dos principais momentos fica por conta da recepção às escolas e Apae quando a importância de cultuar a tradição é transmitida. “Aqui, grande parte dos membros possuem muitos anos de trajetória neste universo. Então, é preciso reforçar as nossas raízes para que as novas gerações se sintam incentivadas a dar continuidade”, enfatiza.

Um dos pioneiros, Aílton Lemos realizava os últimos preparativos no espaço composto por moradores da Vila Popular. Para o tradicionalista, preservação dos costumes é um dever. Foto: Gabriela Arendt Schwingel
Somente delas
Um espaço colorido, decorado com orquídeas, chama a atenção na parte central do acampamento. É o Piquete das Gurias. Conforme a patroa, Shana Müller Vogel, a ideia surgiu em 2021, durante uma conversa entre três amigas, próximo à Semana Farroupilha. Na época, porém, todas as vagas já estavam preenchidas no Acampamento. Assim, o grupo entrou na fila de espera e conseguiu estrear no ano seguinte, após a abertura de vaga. “A gente queria fazer um piquete somente de mulheres e nos disseram que não conseguiríamos. Aí sim fizemos acontecer”, recorda Shana.
Inicialmente, eram 15 integrantes. Ao fim da primeira participação, já reunia 32 sócias. Atualmente, são 50. A estrutura inicial foi montada com materiais doados às participantes ou cedidos pelas próprias, como madeira, telhas que sobraram de reformas, pregos, entre outros. A estrutura improvisada recebeu o charme do toque feminino e evoluiu a cada edição. Com o tempo, tornou-se um reduto para o fortalecimento de vínculos.
Elas também apoiam os negócios umas das outras, por meio da compra de produtos e utilização de serviços oferecidos pelas empreendedoras do grupo. No piquete, a programação costuma incluir atividades como o Dia da Família, jantares e a participação no Desfile Farroupilha. Não há fins lucrativos. Para este ano, estão previstas uma ação com mulheres atendidas pelo Centro de Referência de Assistência Social (Cras) e outras duas atividades de integração.
Segundo Shana, que possui uma ligação histórica com o tradicionalismo, a convivência entre os piquetes ocorre de forma harmoniosa. “Todo mundo se conhece e um ajuda o outro. Forma-se uma vila e chega a deixar saudade quando termina”, afirma. Embora reconheça que esse meio tenha sido historicamente marcado pela presença masculina a patroa avalia que o movimento tem aberto cada vez mais caminhos para a participação das mulheres.

Presente desde 2022, Piquete das Gurias reúne 50 integrantes, destaca a força feminina e tem a amizade como um dos principais pilares. Foto: Arquivo Pessoal/Shana Müller
Animais em destaque
Já no Piquete da Isainox/Schneider Assistência Familiar, liderado pelos irmãos Delmir e Leandro Anschau, os animais são uma atração à parte. A principal estrela é a cabrita de estimação “Memé”, de dois anos. Dócil e sociável, ela faz sucesso tanto com crianças quanto adultos. A cadela Raposinha, de quatro anos, e o galo Fofucho, da raça indiana Brahma e conhecida pela sua imponência, compõem o portfólio da bicharada. Eles vivem na chácara e na residência da família. Durante os nove dias de programação, circulam livremente, embora sempre monitorados.
Segundo Delmir, a “Memé” chegou ainda filhote, após ficar órfã e ser entregue por um amigo. Rapidamente, tornou-se uma companheira e hoje recebe tratamento especial, com direito a idas ao pet shop, estrela na testa e até lenço. “Os alunos ficam encantados, gostam de fazer carinho. Ela é um entretenimento e já é reconhecida por quem frequenta o acampamento”, comenta o proprietário. A cachorrinha, por sua vez, integra o desfile, montada a cavalo.
O espaço foi montado pela primeira vez há seis anos e recebe, especialmente, familiares e amigos. Delmir é o cozinheiro, responsável por pratos como feijoada, carreteiro e Vaca Atolada. Na decoração, fotos de edições anteriores, objetos e laços de várias cores na luminária roda de carroça. Para o empresário, o crescimento do Acampamento simboliza o alcance de um amplo status a nível regional. Mais que isso, representa o “nosso jeito de viver”.
Evolução constante
Para a secretária de Juventude, Cultura, Esporte e Lazer, Vanessa Carniel, um dos fatores que ajudam a explicar o aumento dos piquetes são as melhorias graduais ano após ano e variedade de atrações. A estratégia está em sempre apresentar uma novidade, que atenda ou supere as expectativas do público. Neste ano, a participação de agroindústrias e da Rota Germânica e uma nova configuração (praça de alimentação mais ampla, diversificada e mudança na posição do palco, por exemplo) são algumas delas.
Diferentemente de outros municípios, não há cobrança de taxa para a montagem dos piquetes e toda a infraestrutura geral é cedida pela Prefeitura. Todavia, a contrapartida de cada grupo é a promoção de ao menos uma ação social durante o evento, além da própria responsabilidade com os cuidados do espaço. Todos são de Teutônia e já existe fila de espera para o ano que vem.
O cancelamento de festas tradicionais como as de Muçum e Roca Sales também deverá favorecer a vinda do público. “A gente quer que o visitante se sinta em casa”, finaliza a titular da pasta. Há perspectiva de um número ainda maior de piquetes em 2027, o que exigirá o estudo de alternativas para suprir a demanda e, ao mesmo tempo, manter o padrão.
Programação
Sábado, 12
17h – Abertura oficial, com acendimento da Chama Crioula
17h30 – Apresentações artísticas do CTG Porteira dos Pampas
19h – Ricardo Bergha
21h – Grupo Luz de Candieiro
Domingo, 13
14h – Passeio a cavalo e de carroça para crianças
15h30 – Torneio infantil de tiro de laço, na modalidade vaca parada
17h – Apresentações artísticas do CTG Rincão das Coxilhas
19h30 – Diego Rodrigues & Grupo
Segunda-feira, 14
20h – Show gospel com o Grupo Levantando um Aleluia Tchê
Terça-feira, 15
19h – Celebração Ecumênica Crioula, conduzida pelo pastor Márcio Frank e pelo padre Pedro Ritter. Na sequência, Show com o Grupo Mateiros
Quarta-feira, 16
Noite da Fumaça, com churrasqueadas nos piquetes
19h– Espetáculo “Festejos Farroupilhas”, com a Orquestra Henrique Uebel
20h30 – Grupo Sangue Gaudério
Quinta-feira, 17
14h30 – Ação de mediação sobre a cultura gaúcha para estudantes
19h – Apresentação do CTG Estância do Siqueira
20h – Palestra-show “Herança e História em Canção”
Sexta-feira, 18
18h45 – Declamações de Laura Eduarda Reckziegel Rhein, Lívia Eidelwein, Gabriela Lagmann e Lívia Ferreira
19h30 – César Oliveira & Rogério Melo
21h45 – Grupo Os Centauros
Sábado, 19
14h – Mateada
19h – Apresentação do pastor Márcio Frank e de César Klein
20h30 – Grupo Triopacito
21h45 – Grupo Levada
Domingo, 20
9h30 – 8a Cavalgada Farroupilha, com saída do Agrocenter Languiru e chegada ao Acampamento
10h30 – Apresentações artísticas inclusivas do Grupo Danças e Ritmos da Melhor Idade
15h – Chimarreada com Tertúlia Livre, promovida pelo CTG Porteira dos Pampas
15h30 – Os Mateadores
18h15 – Grupo de Gaiteiros do projeto “Teutônia Cultural”, seguida da execução do Hino Rio-Grandense
18h30 – Entrega de troféus aos participantes, encerramento oficial e extinção da Chama Crioula.