Colecionar itens dos mais diversos é um hobby antigo do ser humano. Mas quando se fala em Copa do Mundo, a corrida em busca das figurinhas para completar o álbum é uma “febre” que normalmente inicia com as crianças e envolve toda a família. A menos de uma semana para o início da maior disputa do futebol mundial, a busca frenética pelas imagens dos craques que compõem as 48 seleções mobiliza pais e filhos.
O jornalista Leandro Hamester (44) recorda que completou o primeiro álbum da Copa quando tinha 12, em 1994, ano em que o Brasil foi tetracampeão. “Além dos craques nacionais, como Romário e Bebeto, havia jogadores como o Stoichkov, da Bulgária, o Hagi, da Romênia, entre outros”. Ele reconhece que não tinha mais a intenção de colecionar, mas o fato de o filho Luan (6) comentar sobre os colegas que estavam falando das figurinhas começou a despertar nele o interesse em retomar a prática.
“Estamos vivendo intensamente esta Copa do Mundo que ainda nem começou”. Hamester utiliza um aplicativo para controlar as figurinhas repetidas e as que faltam. “Tem aquele momento de ansiedade, de abrir o envelope e ver se tem alguma figurinha brilhosa, ou alguma que a gente não tem ainda. Isso está ajudando inclusive o Luan a identificar algumas bandeiras e alguns países”, comenta.
As conversas sobre os jogadores, os times, são momentos de sinergia entre pai e filho. “É um custo alto, sim, mas é um investimento na nossa relação, em criar memórias. Acredito que ele vai lembrar disso e eu já tenho um projeto para, a cada próxima edição da Copa do Mundo, fazer novamente a coleção”, garante.
Conexão e nostalgia
O juiz de Direito Luís Gustavo Negri Garcia (44) e o filho Rafael (9) também estão empolgados. “Desde o início, quando nós compramos o álbum e as primeiras figurinhas, o Rafael já quer ver que jogador é, onde joga, e aí começaram a sair as repetidas e ele já procura algum amiguinho para trocar e aumentar a coleção. Vejo que essa empolgação contagiou todo mundo, inclusive o pai”.
Garcia também lembra que, por volta dos 12 anos, já colecionava as figurinhas do Campeonato Brasileiro e da Copa do Mundo. “A emoção de estar junto é bacana, passa de geração em geração. É gratificante, aquele momento nostálgico de saudade da nossa época, da infância”, conta. Hoje, seu papel é ajudar o pequeno a construir as melhores estratégias de organização e trocas para alcançar o objetivo de completar o álbum.
Conexão é a palavra que resume o hobby para o contabilista e comerciante Elcio André Eckel (54), que corre atrás das figurinhas ao lado da filha Sofia (15). “Estar com ela e fazer uma coisa que ambos gostam, que eu já fazia antigamente, nos anos 80, acredito que seja a parte mais legal. Traz conhecimento também, porque a gente acaba conhecendo países e nomes”, complementa.
Esta já é a terceira vez que eles vivenciam a coleção. Tiveram o álbum na Copa do Catar, em 2022, e quando a competição ocorreu no Brasil, em 2014. “Pretendemos colecionar também nas próximas copas”, garante.
“Múltiplas habilidades”
Diante da “febre” da comunidade escolar, o Colégio Teutônia promoveu nessa terça-feira, 2, o “Clubinho da Copa”. No Auditório Central, alunos, pais e mães participaram de um momento especial para trocas e jogos envolvendo as figurinhas.
O coordenador do Ensino Médio do Colégio Teutônia, Rodrigo Marques, acredita que, além de valorizar uma grande paixão dos brasileiros, que é o futebol, o ato de colecionar as figurinhas proporciona outros ganhos, como o conhecimento sobre outras nações.
“Pedagogicamente falando, é o momento no qual, além da socialização, são criados vínculos com os colegas, com estudantes de diferentes faixas etárias e também gera um processo socioemocional muito interessante, no qual eu preciso também me desapegar de alguma figurinha para conseguir outra, e até preciso fazer negociações”, analisa Marques. Segundo ele, a prática gera diversas sinapses cerebrais e trabalha múltiplas habilidades.
OS ÁLBUNS NA HISTÓRIA
A história dos álbuns de figurinhas da Copa do Mundo começou como uma estratégia promocional de marcas de doces, cigarros e outros produtos. De acordo com o Museu do Futebol, jogadores já estampavam embalagens desde 1919 no Brasil, mas somente em 1938 houve um movimento referente ao Mundial. Na época, a fábrica A Americana lançou as “Balas Futebol”, que continham coleções dos craques.
Em 1950, na primeira Copa disputada em território brasileiro, a empresa lançou o álbum com as seleções participantes. O item se tornou um marco do colecionismo esportivo nacional. Ainda, inovou com prêmios e figurinhas “carimbadas”, aquelas mais difíceis de encontrar. O Museu do Futebol destaca que a bala em si ficava em segundo plano.
No exterior, a referência mais antiga ligada a Copa do Mundo é o álbum El Deportista, lançado no Uruguai pelas Balas Glorieta, em 1932, dois anos depois da primeira Copa, cuja disputa ocorreu no país. A publicação reunia clubes uruguaios, jogadores campeões olímpicos e finalistas do torneio, além de uma página dedicada à Taça Jules Rimet.

Primeiro álbum
da empresa
italiana Panini
foi alusivo à
Copa de 1970,
quando o Brasil
conquistou o tri. Foto: Divulgação
O fenômeno Panini
A empresa italiana Panini estreou no Mundial de 1970, quando a Seleção Brasileira sagrou-se tricampeã. Com alto padrão visual das seleções e jogadores, além da distribuição multilíngue, o álbum ajudou a consolidar o colecionismo internacionalmente.
No Brasil, enfrentou dificuldades para conseguir seu espaço, uma vez que tinha a forte concorrência de outras marcas, como o Chiclete Ping Pong. O cenário começou a mudar somente na Copa de 1990, quando, enfim, comercializou o produto, em parceria com a Editora Abril.
Nova era
Todavia, a presença histórica da Panini tem data para acabar. Em maio, a Fifa anunciou que o Mundial de 2030, cuja disputa vai ocorrer na Espanha, Portugal e Marrocos, será o último da parceria. Isso porque, a partir de 2031, a entidade máxima do futebol adotará outro modelo de licenciamento, com a empresa norte-americana Fanatics para as figurinhas físicas e digitais, o que inclui cards e jogos de cartas.
Eles serão produzidos sob a marca Topps, especialista em colecionáveis esportivos. Essa substituição irá ocorrer de forma gradual, de olho na Copa de 2034.
Obra
A trajetória deste ritual foi transformada em livro. Lançado há dois meses e escrito pelo jornalista Marcelo Duarte, “O álbum dos álbuns de figurinhas das Copas” conta a história de todas as edições lançadas no Brasil desde a década de 1930.
Entre elas, exemplares da editora Vecchi, do chiclete Ping Pong e os da Panini, além de curiosidades. São 152 páginas. Está à venda no site www.pandabooks.com.br e na Amazon.

Livro lançado há dois meses conta a história de todas as edições publicadas no Brasil, desde a década de 1930. Foto: Reprodução/Panda Books