ILUSTRE CIDADÃO

“Me emociono quando vejo que filhos de ex-colaboradores que iniciaram conosco construíram seus próprios negócios”

O quadro Ilustre Cidadão entrevista Marco Antônio Fontana

25/09/2026 | 09:41
Marco Antônio Fontana
Marco Antônio Fontana

Natural de Caxias do Sul, Marco Antônio Fontana tem 78 anos. Casado com Vera Fontana e pai de Pablo, Diego, Rodrigo e Nícolas, o empresário contribuiu decisivamente para o desenvolvimento calçadista em Teutônia, primeiro na Calçados Augustin e Reichert S.A., na década de 1970, e depois na Calçados Reifer Ltda., de 1980 a 2007. Tem formação como Engenheiro Operacional Mecânico e em Segurança do Trabalho e é pós-graduado em Engenharia de Produção. Atualmente, atua na olivicultura, no ramo imobiliário e na pecuária.

Quando iniciaste a atuar em Teutônia e qual o nome da empresa?

Marco Antônio Fontana – Tive o primeiro contato no início da década de 1970, quando ainda era estudante, em Porto Alegre, através do amigo Nestor Schneider, de Estrela. Naquela época, a Calçados Reichert Ltda., de Campo Bom, já comprava couros do curtume R. Affonso Augustin que, por sua vez, já exportava para empresas da Europa. A empresa R. Affonso Augustin procurou Schneider para montar a fábrica aqui em Canabarro. O motivo inicial foi aproveitar o programa de incentivo fiscal que o governo havia introduzido, com o objetivo de agregar valor aos produtos exportados, gerando empregos, através da ocupação da mão de obra disponível, com o objetivo de contribuir para o equilíbrio da balança comercial. Naquele período, eu estudava desenho arquitetônico e nos finais de semana eu vinha junto com Nestor para ajudar a desenvolver o projeto. Mais tarde, o Nestor foi convidado para gerenciar a fábrica, mas acabou não aceitando e eu, por isso, fui convidado, mas também não aceitei, porque Teutônia era muito pequena e a infraestrutura era bastante precária. Pouco tempo depois, o Reichert de Campo Bom me fez uma nova proposta, a qual aceitei. Começamos então a Calçados Augustin e Reichert S.A. em 1973, na Rua Carlos Arnt, em Canabarro, distrito que pertencia, na época, ao município de Estrela.

Qual o papel desta empresa para o desenvolvimento da região, na época?

Fontana – Foi muito interessante para o crescimento da região. Iniciou com pouco mais de 40 funcionários e, no segundo ano, já empregava mais de 150. A Calçados Augustin e Reichert S.A. foi uma das primeiras empresas 100% exportadoras no setor do calçado. O presidente da República Ernesto Geisel inclusive visitou nossa fábrica para prestigiar a empresa, devido ao programa de incentivo fiscal do governo. O empreendimento expandiu-se rapidamente, ocupando toda a mão de obra local, obrigando-nos a buscar mão de obra de outras localidades.

Quais foram os principais avanços conquistados?

Fontana – A empresa reconheceu a importância da comunidade e passou a buscar soluções para os problemas que causavam afastamento dos funcionários. A nossa empresa era dirigida por dois diretores, um era eu, que cuidava do setor de produção, e o outro era o senhor Elimar Schaeffer (in memoriam), que cuidava da área financeira e administrativa. O papel de Elimar Schaeffer foi fundamental nisso, por ter visões muito claras sobre disciplina e também sobre a importância de oferecer melhores condições aos trabalhadores. Ele lutou para trazer ao município a farmácia do Sesi. Estimulou a criação do Siticalte, em 1976, para que as contribuições dos associados ficassem no município. Também incentivou a fundação da Escola Infantil Cirandinha – em atividade até hoje –, para possibilitar que as mães pudessem trabalhar. Schaeffer lutou por melhorias na iluminação pública, porque muitos vinham a pé ao trabalho e as estradas eram precárias e mal iluminadas, lutando, consequentemente, pela melhoria no abastecimento e na qualidade do fornecimento da energia elétrica, tão necessários para o desenvolvimento do município. A fábrica cresceu e a empresa passou a contratar pessoas em municípios vizinhos, como Paverama, Bom Retiro do Sul, mas as estradas e o transporte apresentavam problemas. Entre 1977 e 1978, a empresa passou a instalar atelieres nesses municípios, inicialmente e, mais tarde também filiais, em outras regiões, inclusive, como Paraíso do Sul, Restinga Seca, e até no estado do Ceará, para possibilitar que os trabalhadores pudessem ficar próximos de suas famílias. 

Como surgiu a Calçados Reifer Ltda.? 

Fontana – Naquele momento, os pedidos dos norte-americanos e europeus começaram a aparecer em grandes quantidades. Como o espaço na Carlos Arnt ficou pequeno, houve a necessidade de elaborar um projeto mais amplo. Construímos um prédio planejado, possibilitando conforto e facilidades em seu layout, que até hoje é utilizado pela Piccadilly. Para mim, enquanto profissional, foi uma grande oportunidade de crescimento, pois me permitiu que a teoria aprendida na universidade fosse aplicada na prática. A inauguração ocorreu em outubro de 1980. Além de pagarmos salários acima do mercado, tínhamos uma preocupação constante com o aprendizado dos funcionários. Contratamos professores, em parceria com o Sesi, o Senai e também com as escolas, para dar aulas à noite tanto nas respectivas escolas quanto na própria empresa, destinando espaço adequado para tal, com o único objetivo de combatermos o analfabetismo e, consequentemente, o entendimento dos empregados na execução correta dos procedimentos manuais, já que o produto era essencialmente manual. Com isso, conseguimos fazer com que 100% dos funcionários tivessem, ao menos, o 1º Grau completo. Promovemos palestras com profissionais sobre saúde bucal, sobre separação de lixo, entre outros temas, além de uma infinidade de cursos profissionalizantes para capacitar os funcionários para as suas respectivas funções. Instituímos ainda a Brigada de Incêndio do Reifer, que foi importante para a comunidade e se tornou o embrião para a posterior formação do Corpo de Bombeiros Voluntários. Trouxemos a Ufrgs para oferecer, dentro da empresa, aos funcionários com nível superior, o curso de pós-graduação em Engenharia de Produção. A empresa chegou a empregar, somando as filiais, cerca de 2,7 mil pessoas no auge de sua produção, entre os anos de 1990 e 2000.

Como o senhor se sente quando encontra pessoas que reconhecem a importância da Calçados Reifer em suas vidas?

Fontana – Me emociono quando vejo que os pais compreenderam a importância da educação. Isso refletiu nos filhos de ex-colaboradores, que hoje são médicos, advogados, empresários, enfim, construíram seus próprios negócios e são bem-sucedidos. Me sinto feliz e realizado por ter estado junto com o grupo que contribuiu com a indústria e com o desenvolvimento do Bairro Canabarro, mais ainda porque o negócio do calçado se mantém forte em Teutônia e o setor segue sendo o que mais emprega no município.

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