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agro em foco

Mudanças e cenários na produção leiteira

Opinião de Márcio Mügge, administrador

17/07/2026 | 09:24 Atualização: 17/07/2026 | 09:31

O Rio Grande do Sul é o terceiro maior produtor de leite do Brasil, com um volume anual próximo a 4 bilhões de litros, gerando um Valor Bruto da Produção (VBP) de R$ 9,5 bilhões. A atividade é baseada na agricultura familiar e concentra-se na região nordeste do estado. A região do Vale do Taquari consolida-se como a segunda maior bacia leiteira do RS.

Apesar do forte impacto social e econômico no interior, o setor passa por uma transformação estrutural profunda. Nos últimos anos, o número de propriedades leiteiras caiu drasticamente. Atualmente, são cerca de 29 mil estabelecimentos (uma queda de mais de 12% em comparação aos últimos dois anos), reflexo de desafios como margens de lucro apertadas devido a custos com insumos e falta de sucessão familiar.

Em contrapartida, as propriedades que continuam na atividade estão maiores e mais tecnológicas. O número médio de vacas por propriedade quase dobrou na última década, e a produtividade diária por estabelecimento saltou de 137 litros em 2015 para mais de 360 litros.

O setor lida frequentemente com oscilações nos custos de produção e impactos provocados por adversidades climáticas, exigindo investimentos constantes em genética e bem-estar animal.

A remuneração é um grande desafio. As importações de leite no Brasil geram forte pressão sobre os produtores nacionais, impulsionado pelo livre comércio do Mercosul, o volume de lácteos importados atinge patamares recordes. O cenário é marcado pela disputa comercial em torno de práticas desleais de preço.

O marketing do leite no Brasil passa por um reposicionamento estratégico profundo para recuperar o consumo. O setor enfrenta a concorrência de bebidas vegetais, mitos nutricionais e uma sobre oferta de mercado que reduz as margens do produtor. Para reverter esse cenário, as campanhas focam em ciência, saudabilidade e conexão emocional com o campo.

Produzir leite é para poucos

Trabalhar na atividade leiteira exige extrema dedicação, rotina rígida e resiliência. Embora seja uma das atividades agropecuárias que garante receita mensal constante para as famílias rurais, ela impõe um estilo de vida exaustivo e de alta responsabilidade.

A produção de leite se diferencia de outras culturas porque a “fábrica” nunca para. As vacas precisam ser ordenhadas todos os dias, sem exceção. A jornada começa cedo, geralmente entre 4h e 5h, para a primeira ordenha do dia. O manejo envolve alimentar os animais, limpar as instalações e cuidar da saúde do rebanho. A segunda ordenha ocorre no final da tarde. E, em algumas propriedades, existe ainda a terceira ordenha do dia. Não há folga em finais de semana, feriados ou datas comemorativas.

Para o produtor ter resultado, o trabalho vai muito além de “tirar leite”. Ele precisa dominar várias áreas fundamentais: gerir o negócio – controlar custos de insumos, medicamentos, energia e combustível; preparar e calcular dietas balanceadas (silagem de milho, pastagem, ração e minerais) para garantir alta produtividade; monitorar inseminações e selecionar touros para gerar bezerras mais produtivas e resistentes a doenças; prevenir e tratar problemas comuns como a mastite (infecção no úbere), cuidar dos cascos e garantir conforto térmico (aspersores e ventiladores).

Beba mais leite! O leite que nutre a sua saúde sustenta o futuro de quem produz!

RÁPIDAS

Um grande problema para o produtor de leite: o Brasil registra patamares históricos na entrada de leite estrangeiro:

• Volume recorde: entre janeiro e maio de 2026, o Brasil importou 1,02 bilhão de litros de leite.

• Principais origens: O Mercosul concentra a quase totalidade do produto internalizado. A Argentina responde por 66,34% e o Uruguai por 23,02% das compras.

Mix de produtos: O leite em pó lidera as importações, representando cerca de 80,2% do volume total. O restante se divide entre queijos (19%) e derivados.

Principais Impactos no Mercado Brasileiro:

• Margem de lucro esmagada: O leite importado chega à indústria brasileira a preços muito baixos. Isso força a queda do preço pago ao produtor brasileiro (leite in natura). Em várias regiões do Rio Grande do Sul e de Minas Gerais, os produtores operam abaixo do custo de produção, recebendo menos de R$ 2,00 por litro enquanto gastam cerca de R$ 2,40 para produzi-lo.

• Desestruturação da agricultura familiar: A falta de rentabilidade acelera o êxodo rural e o encerramento de atividades. Pequenos e médios produtores vendem suas matrizes leiteiras para o abate por não conseguirem honrar as contas de custeio e ração animal.

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