ILUSTRE CIDADÃ

“O que foi construído nunca foi feito por uma pessoa só. Foram muitas mãos, muitos sonhos, muitas histórias e muita gente acreditando junto”

O quadro Ilustre Cidadã entrevista Glaci Kunzler Dickel

11/09/2026 | 09:52
Glaci Kunzler Dickel
Glaci Kunzler Dickel

Natural de Poço das Antas, a instrutora de danças alemãs, professora e ex-secretária de Juventude, Cultura, Esporte e Lazer de Teutônia, Glaci Kunzler Dickel tem 75 anos. É casada com Astor Frederico Dickel, o “Fritz”, mãe de Daniel e Pauline e avó de Enzo, Lara e Alexis. Iniciou os estudos em Poço das Antas, depois em Canoas e, mais tarde, em Santa Cruz do Sul, onde cursou Técnico em Contabilidade. A formação superior foi em Educação Física e a pós-graduação em Administração e Liderança Escolar, o que lhe possibilitou ampliar o olhar para a educação, para a gestão e, principalmente, para as pessoas, aprimorando a forma de trabalhar, com organização, liderança, envolvimento, escuta e construção conjunta.

Como a dança entrou na tua vida?

Glaci Kunzler Dickel Meu primeiro contato com a dança alemã e com os grupos aconteceu ainda em Poço das Antas. Mais tarde, no Colégio Teutônia, a dança ganhou um espaço maior na minha vida, junto com a Educação Física e a Educação Artística. Ali trabalhei também com danças escolares e rítmicas, experiências que contribuíram para minha formação e me levaram, aos poucos, para a dança folclórica. Depois, a caminhada passou por São Vendelino, Tupandi, Westfália e São Pedro da Serra. Em cada comunidade, o trabalho teve o mesmo propósito: valorizar a cultura, pesquisar, ensinar e, principalmente, reunir pessoas. Os grupos mudavam, as comunidades eram diferentes, mas a essência permanecia. A dança foi se tornando uma forma de preservar histórias, aproximar gerações e criar vínculos. E foi assim, de comunidade em comunidade, que ela passou a ocupar um espaço tão importante na minha vida.

E a dança também te possibilitou experiências internacionais?

Glaci Sim. Com o passar dos anos, a dança me levou para outros lugares. Foram cinco participações em festivais internacionais de dança na Alemanha. Embora minha formação estivesse ligada ao folclore alemão, quando estive na Alemanha, junto com os grupos de dança, representei o Brasil. Em todas as participações apresentávamos danças brasileiras, mostrando a diversidade e a riqueza da nossa cultura. Era uma experiência muito especial: levar um pouco do Brasil para um país com o qual tínhamos justamente essa ligação cultural. Ao mesmo tempo, conhecíamos outras culturas, encontrávamos grupos de diferentes lugares e construíamos amizades que permanecem até hoje.

Como é coordenar grupos de dança em diferentes municípios?

Glaci Cada lugar tem sua realidade, suas pessoas e suas características, mas o propósito sempre foi o mesmo: trabalhar com seriedade, valorizar a cultura e envolver a comunidade. O trabalho com os grupos nunca se limitou às apresentações. Havia também uma preocupação muito grande em proporcionar aos dançarinos momentos de lazer, convivência e novas experiências, através de passeios, viagens e encontros. Era importante que os jovens tivessem um espaço de convivência e construíssem amizades sadias.  Eram oportunidades de ampliar horizontes e, ao mesmo tempo, oferecer alternativas positivas para ocupar seu tempo e construir relações. Foram muitos anos de encontros, ensaios, apresentações, viagens e projetos. Mas, olhando hoje para essa caminhada, talvez o que mais permaneça não sejam os eventos realizados, e sim as pessoas encontradas pelo caminho. Quando chegava a hora de deixar um grupo ou uma comunidade, nunca era simplesmente deixar um trabalho: eram pessoas que haviam se tornado parte da vida.

E como funciona a mescla de expressões artísticas nos teus trabalhos?

Glaci Alguns projetos nasceram de uma ideia simples, outros exigiram meses de pesquisa e preparação. Mas havia algo em comum: a preocupação de que cada apresentação tivesse um significado. Sempre gostei de pesquisar antes de colocar uma história no palco. Conhecer a origem de um costume, entender uma tradição, buscar os detalhes dos trajes, das músicas e personagens. A dança podia ser o ponto de partida, mas a intenção era fazer com que as pessoas também conhecessem e sentissem aquela história. Assim nasceram projetos envolvendo dança, teatro, música, pesquisa e, principalmente, a participação da comunidade. É assim que sempre enxerguei o trabalho cultural: uma ideia pode partir de uma pessoa, mas só ganha vida quando encontra outras pessoas dispostas a acreditar, colaborar e fazer acontecer.

Como avalias a atuação como secretária de Juventude, Cultura, Esporte e Lazer de Teutônia?

Glaci Depois de tantos anos trabalhando em diferentes comunidades, surgiu o convite de assumir a secretaria. Houve algumas recusas antes de aceitar. Afinal, assumir uma secretaria significava deixar, pelo menos em parte, uma forma de trabalho que já fazia parte da vida havia muitos anos. O convite, porém, representava também uma oportunidade diferente de contribuir. Em vez de atuar com um grupo ou com uma comunidade de cada vez, seria possível pensar projetos de uma maneira mais ampla, envolvendo diferentes áreas e pessoas. Acabei aceitando o desafio. Foi uma nova etapa, com responsabilidades diferentes e muitos aprendizados, mas a essência continuou a mesma: aproximar pessoas, valorizar a cultura, incentivar a participação e transformar ideias em ações que chegassem à comunidade.

Como é hoje o reencontro com pessoas que participaram de algum grupo que coordenaste?

Glaci Percebo o quanto a vida foi generosa comigo. Vivi muitas coisas boas, que me ensinaram muito. Conheci lugares, participei de projetos, aprendi com cada experiência e, principalmente, fiz inúmeras amizades. Algumas fizeram parte de uma determinada etapa, outras continuam presentes até hoje. E talvez essa seja uma das maiores riquezas que a vida me deu: os vínculos que foram construídos ao longo do caminho. Hoje, quando saio de casa e encontro alguém que fez parte de alguma dessas etapas, existe uma sensação muito bonita de realização. São encontros que fazem lembrar que todo aquele tempo, todo o trabalho e toda a dedicação tiveram um sentido. O que foi construído nunca foi feito por uma pessoa só. Foram muitas mãos, muitos sonhos, muitas histórias e muita gente acreditando junto. E talvez seja isso que permanece: não apenas aquilo que foi realizado, mas as pessoas que ficaram no caminho e tudo aquilo que, juntos, conseguimos viver e construir.

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