O El Niño entrou em rápida intensificação nas últimas semanas e já influencia o comportamento do clima. No Rio Grande do Sul, os efeitos tornaram-se mais evidentes ao longo de julho, quando o período prolongado de frio deu lugar ao calor fora de época e, posteriormente, a uma sequência de chuvas volumosas, temporais e enchentes. Nos últimos dez dias, o Rio Taquari registrou duas inundações médias.
Confirmado em 11 de junho pela Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), o fenômeno se caracteriza pelo aquecimento do Oceano Pacífico e redução da intensidade dos ventos alísios. Os alísios são correntes de ar constantes vindos dos Hemisférios Sul e Norte, que se encontram na altura da Linha do Equador e seguem de leste para oeste.
De acordo com a Organização Meteorológica Mundial (OMM), o movimento normal dos ventos interfere nas águas oceânicas superficiais e as empurra na direção oposta, o que permite que as mais profundas e frias subam. No entanto, quando ocorre o enfraquecimento ou inversão deste padrão, não ocorre essa troca e as mais quentes permanecem paradas por um período maior. Assim, a temperatura pode chegar a 3°C ou mais acima da média, o que então, caracteriza a formação do El Niño.
Com isso, a evaporação aumenta, fazendo com que o ar quente e úmido suba e forme grandes áreas de nuvens carregadas sobre o oceano. Depois de provocar chuvas no Pacífico, esse ar perde parte da umidade e mantém a circulação pela atmosfera. Ao descer sobre o norte da América do Sul, ele dificulta a subida do ar próximo à superfície e, consequentemente, reduz a formação de nuvens. Por isso, grande parte das regiões Norte e Nordeste do Brasil costumam registrar menos chuva e enfrentam períodos maiores de seca.
Por outro lado, o efeito é contrário no Sul. Como as mudanças na circulação atmosférica dificultam o avanço das frentes frias pelo restante do território, os sistemas permanecem por mais tempo sobre os três estados, com o aumento da frequência e no volume de precipitações, intercalados com curtos períodos de melhoria, como se observou a partir desta segunda quinzena.
Projeções
Embora estejam sujeitos a mudanças constantes, os atuais prognósticos apontam para um dos El Niños mais fortes das últimas décadas. Para a NOAA, a probabilidade de permanência chega a 97% até o Verão, sendo que no trimestre entre outubro e dezembro, a intensidade ultrapassa os 80%. A MetSul Meteorologia destaca que diferentes modelos apontam para uma anomalia de temperatura igual ou superior a 2oC. Na climatologia, isso representaria um “Super El Niño”, termo informal para descrever a amplitude do fenômeno.
De modo geral, acrescentam os diferentes institutos, o El Niño funciona como condicionante climática, aumenta a probabilidade de determinados padrões, mas não é capaz de determinar isoladamente a ocorrência ou a intensidade de cada evento. Atualizações deverão ser divulgadas no decorrer das próximas semanas.
A EVOLUÇÃO DO FENÔMENO
Janeiro de 2026
Pacífico ainda apresentava condições de La Niña fraca.
Fevereiro
Águas com temperatura acima da média surgiam junto à costa da América do Sul.
Março
Região “Niño 3.4” ficava próxima da neutralidade; ventos de oeste começavam a ganhar presença.
Abril
Aquecimento se espalhava pelo Pacífico Centro-Leste.
Maio
Anomalia mensal da região “Niño 3.4” atingia cerca de 0,9°C.
11 de junho
NOAA confirmava oficialmente as condições de El Niño.
Junho
A atmosfera passava a responder de forma consistente ao oceano aquecido.
Entre 16 e 18 de julho
Calor fora de época marcava a virada sobre o Centro-Sul da América do Sul.
Segunda metade de julho
Chuva volumosa, temporais e enchentes atingem o Rio Grande do Sul. Anomalia de temperatura no Pacífico chega a + 2,1oC;
Até o primeiro trimestre de 2027
NOAA estima 97% de chance de um fenômeno de alta intensidade